Minha vida era um barco sem rumo,
perdido no mundo, em rota de colisão
com o nada, com o vazio, com o escuro.
De dia, minhas horas eram longas,
escuras,
tristes,
mortas.
De noite, a minha lua
nua, e eu ardia ante a sua imagem
cinza, polida.
E eu a flanar sob sua luz
Me perdia, sem querer me achar.
Passaram-se dias, meses, anos
Até que eu tive um sonho
Ah, sonho!
lindo, calmo
passei dias a sonhar,
perdi madrugadas envolvido nesse delírio,
senti cheiros, gostos, toques, lábios, mãos, lágrimas, batidas cadentes de dois corações na mesma frequência.
Uma torrente de desejos, atos, gestos, sons esparços baixos.
Hesitações, desvairío, a lascívia e a santa lei casta.
Vastas,
Tentei romper-lhe a bata,
Saciar-nos em ti.
Tentei parar as horas, tentei atrasar a vida,
Deixar o futuro, viver no presente, sempre, pra sempre.
Nunca, voltar, ir, partir, NUNCA.
Sonho, como sonho era
Teve fim, que ecoa como a derrota
Como a perda de algo que não tive
Como chance que não foi me dada
Como a fé naquilo que não se vê.
Meu barco sem rumo, agora persegue
Um sonho, uma noite, um dia
Uma vida, quem sabe: você.
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