segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A carta

Algum dia, de algum mês, de um ano que eu já perdi a conta.


Lá fora o frio é paralizante e a neve já cobre as janelas da casa. Já não vejo mais o dia, nem sequer vejo a noite. Aqui dentro, na solidão de meu eu, as horas passam tristes e lentas, nelas eu continuo me arrastando. Não faço questão de saber se estou dormindo, de saber se estou acordado.

Meus suprimentos já estão acabando. Já não sei mais o que falta pr'eu viver, nem o quanto falta pr'eu morrer. A época do desespero foi embora. Já não grito, já não debato, já não reclamo. Ninguém vai me ouvir. Daqui de dentro, provavelmente, não sairei.

Um dia desses ouvi um som vindo de fora. Não lembro quando. Não sei se faz tempo ou se não faz. Sei que me tomou de súbito uma alegria. Eu pensei em gritar, eu pensei em correr, em viver. Mas, ninguém respondia aos meus sinais. Ninguém via que daqui de dentro eu estava morrendo.

Sentei de novo na minha cadeira, abri de novo meu velho caderno, peguei de novo a velha caneta e escrevi sobre a rotina de mais esse dia que passou.

Agora estou aqui, a luz da vela acessa,
Meus papeis e minha vida sobre a mesa
Os meus dias, e a rotina sempre a mesma.

Até quando?
Até quando?

Quem será que vai morrer primeiro?
Eu, ou a minha solidão?


Uma carta de autoria desconhecida,
de alguém perdido ou muito triste

Um comentário:

Fê Colcerniani disse...

Muito bacana seu blog... voltarei mais vezes... Ha, e na sua descrição... realmente... nada melhor que uma roda de amigos, de smaba. de cerveja... viva todas as rodas... vivas...