Ela é mais uma janela em que eu não vejo.
Não vejo o movimento nas ruas,
Os bares cheios, os ônibus lotados,
Os em situação de rua, os trombadinhas,
Não vejo as pessoas indo caminhar no aterro,
Não vejo os ambulantes, o comércio reabrindo,
Os idosos circulando sem máscara,
O polícia recebendo a propina.
De uma certa forma, não ver isso me acalma,
Me faz sentir um pouco menos de raiva.
De uma certa maneira, não ver faz bem
Mas também não vejo o mar,
Não vejo as árvores,
Não ouço o barulho das ondas,
Ouço pouco o cantar dos passarinhos,
Não vejo o sol nascer,
Não o vejo se por,
Não vi a lua cheia, o eclipse,
O alinhamento de Jupiter, Saturno,
Mercúrio, Vênus e Marte.
Não vi a chuva de meteoros, a grande lua.
Não vejo os morros, as florestas.
Não vejo a natureza.
E, de uma certa forma, isso me dá raiva.
Não ver o que eu gostaria de estar vendo,
Não ver o que gosto de olhar quando estou lá fora.
Perder a vida acontecendo e não poder enxergar, ver.
De uma certa maneira, não ver faz mal.
Daqui, da janela, é sempre o mesmo céu,
Com estrelas, nuvens, sol e a lua passando.
Os mesmos prédios, os mesmos vizinhos,
O culto evangélico aos domingos e os louvores desafinados,
O barulho da obra aqui embaixo,
As boas músicas do vizinho professor de história
Que eu não sei se realmente o é,
Mas gosto de imaginar que sim e que está aposentado.
O cultivador de uma certa planta que exige iluminação 24 horas por dia.
O cenário parou de mudar, segue estático.
De vez em quando um bem-te-vi,
De vez em quando as gaivotas lá no alto,
De vez em quando alguns urubus (buracos da fechadura do céu),
Dez em quando nada.
Só o mesmo e incessante nada.
O mundo que tenho visto tem sido esse.
4 meses, 120 dias, 16 semanas
Quase meio ano.
Um vírus.
90.000 mortes a mais.
Já fui ódio,
Amor, tesão,
Raiva, inveja,
Choro, alegria,
Cansaço, tédio,
Tristeza, excitação,
Desânimo, mal humor.
Hoje, sou tudo isso,
E nada disso está bastando
Lá fora, pela janela, tudo igual
Aqui dentro, não há paz
Rio, 28/07/2020.
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